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Classe média está asfixiada e precisa de ajuda, diz OCDE - Valor Econômico

A classe média está sufocada financeiramente, tem dificuldades para preservar o seu peso na economia e o seu modo de vida. Sua renda está em ponto morto e não consegue fazer face à alta dos custos de habitação e educação. Com esse cenário traçado para os países desenvolvidos e alguns emergentes, incluindo o Brasil, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) sugere que os governos adotem um plano de ação global para socorrer a classe média. A revolta dos "coletes amarelos" na França é um dos mais violentos e visíveis sinais de insatisfação da classe média num país desenvolvido. A demanda desse segmento da sociedade é cada vez maior em nações emergentes também. O estudo "Under Pressure: the Squeezed Middle Class", divulgado ontem, define como classe média quem tem renda entre 75% e 200% da renda nacional média. Essa renda, nos países da OCDE, varia de US$ 5.010 no México a US$ 35.310 em Luxemburgo.

Assim, uma pessoa sozinha é classe média se tiver renda entre US$ 3.757 e US$ 10.019 no México e entre US$ 26.482 e US$ 70.620 em Luxemburgo. Com renda de US$ 23 mil, as pessoas seriam de classe média em 25 dos 34 países da OCDE. Somente em Luxemburgo, Noruega, Suíça e nos EUA esse valor é insuficiente. Já no Chile, México e na Turquia essas pessoas se situariam na classe mais alta da sociedade. Para a OCDE, uma classe média próspera é crucial para qualquer economia ser bem sucedida e para a coesão social. A classe média sustenta o consumo, impulsiona o investimento em educação, saúde e habitação e tem um papel central em apoiar os sistemas de proteção social via pagamento de impostos.

O estudo diz que as sociedades com uma forte classe média têm menos criminalidade, maior nível de confiança e satisfação de vida, assim como maior estabilidade política e boa governança. No entanto, conforme a OCDE, um grupo de 10% da população nos países ricos tem quase metade da riqueza total, enquanto os 40% com renda menor tem apenas 3%. A insegurança econômica atinge uma grande parte da população: mais de uma em cada três pessoas é economicamente vulnerável. A influência da classe média caiu consideravelmente. Na maioria dos países da OCDE, a renda intermediária é hoje pouco maior que há 10 anos, avançando só 0,3% por ano, ou um terço a menos que a renda média dos 10% mais ricos. Se cerca de 70% da geração "baby boom" (pessoas nascidas após a Segunda Guerra) faziam parte das famílias com renda intermediária quando tinham 20 anos; hoje, somente 60% dos jovens da "geração Y" estão nessa situação.

Segundo o estudo, crianças nascidas de pais com ensino médio incompleto têm 15% de chance de ir à universidade, contra 63% dos filhos de pais com curso superior. Saúde e expectativa de vida são também fortemente influenciados por fatores socioeconômicos. "Hoje a classe média parece mais e mais um barco que navega em águas turbulentas", disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurria, em comunicado. O custo de vida da classe média subiu mais que a inflação. A habitação, por exemplo, representa a parte da despesa mais importante no orçamento, com um terço da renda disponível, contra um quarto nos anos 90. Mais de uma em cada cinco pessoas de classe média gasta mais do que ganha. O excesso de dívida afeta mais a classe média do que famílias de renda baixa ou alta. A maioria das pessoas nos países da OCDE se considera de classe média.

Essa autoidentificação é maior nos países nórdicos, Holanda, Luxemburgo e Suíça. Diante de suas constatações sombrias, a OCDE conclama os governos a reagirem e ajudarem a classe média nas suas preocupações e incertezas. A entidade defende que os governos melhorem o acesso a serviços públicos de qualidade e otimizem a cobertura da proteção social. Diante da alta do custo de vida, sugere medidas que encorajem moradia a preço acessível. Subvenções específicas, ajudas em financiamento e redução de imposto para quem comprar uma residência são soluções propostas no estudo. Nos países onde o endividamento ligado à habitação é muito alto, a redução do juro habitacional permitiria algum alívio às famílias asfixiadas.

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