Federação Nacional dos Sindicatos de Empresas de Recursos Humanos, Trabalho Temporário e Terceirizado

Acordo na GM abre precedente na base metalúrgica - Valor Econômico

Ontem à tarde, os trabalhadores da fábrica da General Motors em São José dos Campos (SP) aprovaram, em assembleia, um acordo que reduz benefícios em troca da promessa da montadora de voltar a investir naquela fábrica. No mesmo dia, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, foi à Brasília entregar ao vice-presidente, Hamilton Mourão, um documento que trata de política industrial e geração de empregos. Em princípio, um movimento não tem nada a ver com outro e não foram combinados. Mas estão fortemente ligados. Os dirigentes do ABC sabem que o episódio GM abre um precedente para redução de direitos em todas as bases de uma das categorias mais mobilizadas do país. Sob alegação de que não tem obtido lucros no país, o que a levaria a cancelar futuros programas de investimentos, a GM abriu negociação com os sindicatos onde estão suas fábricas: São Caetano do Sul (SP), São José dos Campos (SP), Joinville (SC) e Gravataí (RS). Cada um segue uma tendência política e nenhuma dessas bases pertence ao sindicato do ABC, tradicionalmente mais forte e ao qual pertenceu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O primeiro a fechar acordo foi sindicato de São José dos Campos, com o qual a GM historicamente mantém uma difícil relação.

Apesar de a entidade seguir uma tendência mais radical - a Conlutas - sua base estava mais fragilizada e propensa a negociar. Há tempos essa fábrica não entra nos programas de investimentos da GM e, por isso, tinha tudo para ser a primeira a fechar caso a multinacional, de fato, estivesse disposta a encerrar operações em alguma região do país. Por meio de nota, a direção do sindicato de São José disse que o acordo com a GM "traz dez cláusulas que flexibilizam direitos". "Por outro lado, a montadora assegura a viabilização de um novo projeto", destacou. Segundo a entidade, a empresa prometeu aos sindicalistas investir em torno de R$ 5 bilhões naquela unidade. Dessa forma, essa fábrica ficaria com a metade do programa de R$ 10 bilhões que há uma semana a GM confirmou ter pronto caso feche acordos não apenas com os sindicatos como também fornecedores, revendedores e governo de São Paulo. Na votação, em assembleia realizada na troca de turnos, com cerca de 4 mil pessoas, os trabalhadores aceitaram, por ampla maioria, abrir mão do reajuste salarial neste ano. Eles receberão um abono de R$ 2,5 mil. Em 2020, o reajuste será equivalente a 60% do INPC apurado entre setembro de 2019 e agosto de 2020, além de abono de R$ 1,5 mil. Pelo acordo, os salários serão reajustados em 100% do INPC em 2021. Ficou acertada, ainda, uma revisão de acordos de flexibilidade de jornada e de folgas.

Nos bastidores da indústria, havia muita expectativa em torno do que a GM, que é líder do mercado brasileiro, negociaria com seus trabalhadores. A proposta inicial tinha 21 itens, segundo os sindicalistas. Ao final da assembleia, ontem, a direção do sindicato gabou-se de a empresa "ter desistido de aumentar a jornada de 40 para 44 horas semanais e adotar a terceirização irrestrita na fábrica". O documento entregue pelo sindicato do ABC a Mourão afirma que "no setor metal-mecânico, a geração de empregos foi rigorosamente nula no biênio 2017/18". O texto também critica a reforma trabalhista e destaca que "a discussão a seu respeito colocou em evidência, mais uma vez, um ajuste considerando o custo do trabalho como alvo". Mas a GM não é a primeira a negociar a troca reajuste por um abono que não é integrado ao salário. Um acordo com essas características foi fechado há três anos entre a direção da Volkswagen e o próprio Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

A diferença em relação à discussão aberta, agora, pela GM, é que o entendimento na Volks ocorreu no auge da crise que afetou o setor automotivo. A Volks ameaçava demitir em massa e aquela negociação, feita em troca de novo projeto de carro para a fábrica do ABC, o Polo, incluiu um plano de demissões voluntárias. O acordo fechado, ontem, em São José dos Campos, sinaliza que acerto semelhante será feito em São Caetano do Sul, numa fábrica que está passando por uma completa modernização, como resultado do último programa de investimentos anunciado pela GM, de R$ 13 bilhões, para o período entre 2014 e 2019. O próximo programa, em torno de R$ 10 bilhões, abrange 2020 a 2024. A empresa não comenta os detalhes das negociações em curso. Por meio de nota enviada à imprensa no sábado, o presidente da GM Mercosul, Carlos Zarlenga, reagiu aos comentários de quem estranha que as queixas venham da líder de mercado: "Como líderes de mercado, estamos assumindo a responsabilidade de encarar os desafios de competitividade que vive a indústria para viabilizar um futuro sustentável aos nossos negócios e o devido retorno aos acionistas". A montadora mantém negociações com os fornecedores, concessionários e o governo paulista, que já prometeu incentivos a partir de 2023 caso a arrecadação aumente.

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