Federação Nacional dos Sindicatos de Empresas de Recursos Humanos, Trabalho Temporário e Terceirizado

'Vai demorar para consumo voltar a ser o que era em 2010' - Valor Econômico

Há uma demanda reprimida "gigantesca" na população e um otimismo "generalizado" entre os empresários, o que em tese pode levar a um crescimento mais forte da economia brasileira em 2019. Mas, depois de anos de recessão, de retomada frustrante da atividade e um desemprego insistentemente alto, cidadãos e empresas estão cautelosos, à espera de que as expectativas criadas durante a campanha eleitoral que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República se tornem realidade. Esse é o cenário traçado por Renato Meirelles, presidente e sócio do Locomotiva, Pesquisa e Estratégia, instituto que faz diagnósticos e mapeia tendências da sociedade e economia brasileiras.

O Locomotiva tem registrado aumento significativo na demanda por informações de empresas que querem abrir fábricas, lançar linhas de produtos, investir em educação. Num otimismo moderado pelo alto desemprego, a população está menos animada que os empresários, mas ainda assim esperançosa, afirma o publicitário, que em 2012 fez parte da comissão que estudou a "nova classe média", na então Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República. Especialista em consumo e opinião pública, Meirelles, que no início da década de 2010 fundou os institutos de pesquisa D ata Favela e o Data Popular, não prevê um boom de demanda doméstica tão cedo. "O consumo vai aumentar, mas vai demorar para alcançar o patamar de dez anos atrás. Enquanto a renda não voltar a crescer de forma consistente, não vamos restabelecer a sensação de bem-estar. Mais gente empregada e mais gente empreendendo são o que aumentam a sensação de bem-estar da população", afirma. No front político, ele vê a sociedade brasileira mais exigente, disposta a fiscalizar o poder público e interessada em influenciar de alguma forma o rumo do país.

Neste sentido, as redes sociais devem continuar importantes na mediação com o mundo político. "Isso cria um desafio adicional para os políticos, que é o de se manterem conectados a seus eleitores reais, sem achar que eles são apenas aqueles que os seguem nas redes sociais." Meirelles diz que há um risco maior de frustração do eleitor, se o governo idealizado no processo eleitoral não se concretizar. Por outro lado, não concorda que as redes podem tudo. Em sua avaliação, a facada durante a campanha eleitoral fez Bolsonaro ter uma grande exposição nas reportagens de TV e isso contribuiu sua para a eleição, tanto quanto as redes.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida pelo especialista:

Valor: Pesquisa feita pelo Locomotiva em meados do ano passado sobre a percepção do brasileiro a respeito de seu futuro pessoal e da economia mostrava certo pessimismo. Como está essa percepção hoje? 

Renato Meirelles: Aquela pesquisa mostrava uma grande dissonância entre expectativa de melhora das finanças pessoais versus a melhora da economia brasileira. Quase 20 pontos percentuais separavam essas duas percepções. Em nosso último levantamento, esse número caiu para três pontos percentuais. Empresas e pessoas estão mais otimistas porque esperam crescimento do país após as eleições. Esse otimismo é maior entre os mais ricos e entre os empresários. A quantidade de novos briefings, de demanda de trabalho que estamos recebendo de companhias que querem abrir fábricas, lançar linhas de produtos, que querem voltar a investir em educação é gigante. A população está menos otimista que os empresários, mas acha que agora vai ser diferente, que vai ser melhor.

Valor: Por que a população está menos otimista?

Meirelles: Porque o emprego não voltou com a velocidade e o poder de compra do salário não se restabeleceu da forma que todos gostariam.

Valor: Os empresários já estão partindo para investir ou é mais prospecção?

Meirelles: Existe um otimismo generalizado e temos visto aumentar a quantidade de análises de cenários prospectivos pelo setor produtivo. As empresas devem investir mais neste ano que nos anos anteriores. O empresário está tentando entender o mercado e fazendo contas. O Brasil tem uma demanda reprimida gigantesca. O brasileiro quer voltar a ter um padrão de vida perdido na crise. Acredito que esse otimismo aponta para uma retomada real da economia.

Valor: Podemos estar às portas de um boom de consumo?

Meirelles: Teremos crescimento do consumo, sim, mas não será algo como em 2010 [quando o PIB cresceu 7,5%, com forte demanda das famílias]. Temos várias pesquisas que mostram que mesmo quem está empregado tem receio de consumir. Na crise, o brasileiro passou a fazer mais pesquisa de preço, aprendeu a escolher, ficou mais seletivo. Também ficou mais empoderado e usa muito as redes sociais para reclamar das empresas. São coisas que não devem mudar com a retomada da economia. Independentemente da velocidade da retomada da economia, a da demanda deve ser mais lenta porque o consumidor está mais cauteloso. Vai demorar para chegarmos ao patamar de consumo de dez anos atrás.

Valor: Existem riscos para a retomada da demanda?

Meirelles: Sim. Eventuais casos de corrupção no governo, que se elegeu sobre uma plataforma anticorrupção, que poderiam criar um sentimento de frustração. Uma eventual diminuição de benefícios sociais é outro risco, embora o presidente Jair Bolsonaro tenha prometido criar o 13º salário para os beneficiários do Bolsa Família. O governo tem um semestre para mostrar a que veio e para fazer efeito no bolso do consumidor. Isso mantém o bom humor das pessoas.

Valor: Podemos dizer que aquela nova classe média que surgiu com o crescimento da economia nos anos 2000 ainda existe?

Meirelles: Estamos no meio de um estudo muito grande para enxergar o impacto que essa nova classe média tem no Brasil de hoje. Sob um recorte puramente econômico, ainda há uma grande parcela - 54% - dos brasileiros na classe C. Ela continua o vetor principal da economia. Em termos de renda, a chamada nova classe média diminuiu menos na crise do que ela cresceu nos anos 2000. Ela é fundamental para o crescimento do país, mas é bem menos homogênea do que a gente acreditava.

Valor: Houve alguma mudança de comportamento do consumidor depois de três anos seguidos de queda de inflação?

Meirelles: A população não enxerga a queda da inflação como os economistas. Para ela, inflação é sempre um problema. Sempre existe a percepção de que as coisas estão mais caras. Enquanto a renda não voltar a crescer de forma consistente, não vamos restabelecer a sensação de bemestar das pessoas. Mais gente empregada e mais gente empreendendo são o que aumentam a sensação de bem-estar 

Valor: O trabalho do Locomotiva envolve mapeamento e análise das redes sociais e vimos que mesmo no pós-eleição elas parecem influenciar o debate, vide o processo de escolha da presidência do Senado. Qual o papel das redes sociais na política a partir de agora?

Meirelles: O papel real das redes continua grande na mediação entre políticos e população, mais que em qualquer outro momento, mas menos do que parte dos analistas considera. Na eleição presidencial, por exemplo, muita gente creditou a vitória de Jair Bolsonaro às redes sociais. Isso é meia verdade. A outra metade da verdade é que, por causa da facada, Bolsonaro foi o candidato que teve mais exposição na TV. Assim, não é verdade que a televisão não teve papel na eleição. Bolsonaro só conseguiu crescer e se consolidar após a facada [em setembro do ano passado, em Juiz de Fora]. Houve muita cobertura, dos detalhes da operação no intestino até seu processo de recuperação. A TV foi fundamental, na minha opinião, para que ele se consolidasse como o candidato antissistema.

Valor: Como foi essa consolidação, já que no início da campanha adversários o apontavam como um candidato de dentro do sistema político, com 28 anos de Congresso Nacional?

Meirelles: Todos os nossos trackings [pesquisas de monitoramento] mostravam que ele tinha caído três ou quatro pontos [nas intenções de voto] após a primeira semana eleitoral [na TV e no rádio], entre o dia 31 de agosto ao dia 6 de setembro, dia da facada. Com ela, mudaram as premissas que faziam Bolsonaro cair: o caso da "Val do açaí" [então assessora do parlamentar que foi acusada de ser funcionária fantasma], a atuação de décadas como deputado. Naquele fim de semana, entendemos que as premissas iniciais tinham acabado e vimos que Bolsonaro tinha virado o favorito. A partir dali, ele conseguiu uma exposição que até então não tinha e conseguiu uma boa explicação para não ir aos debates, que poderiam ser um tiro no pé. Bolsonaro conseguiu ocupar o espaço que não é o do novo, mas que era do antissistema. Dito isso, há 137 milhões de pessoas com mais de dez anos de idade que acessam a internet diariamente no Brasil. Três quartos dos eleitores acessam redes sociais, em grupos cada vez mais homogêneos entre si e heterogêneos entre eles. Isso leva a um processo de radicalização. Alguns políticos entenderam essa força.

Valor: Qual o risco que essa força traz para o mundo político?

Meirelles: Os políticos passarem a acreditar que o universo total dos brasileiros é o que ele vê pelas suas redes sociais. Valor: Isolando-se mais dentro das bolhas?

Meirelles: Mais dentro da bolha. E este é o momento em que o eleitor quer ser o protagonista de tudo. Quando a referência do político passa a ser o que ele observa nas redes sociais dele, esse político passa a ser um sujeito mais manipulável. Não se sabe o quanto as redes representam de fato a sua base eleitoral. Existem os robôs. O sucesso da renovação política virá da capacidade dessa classe de se manter conectada com seus eleitores reais.

Valor: Do lado do eleitor, as redes embutem um risco maior de frustração? Meirelles: A eleição do ano passado trouxe um desejo de renovação política e as pessoas não querem mais do mesmo. Parte das dificuldades do primeiro mês de governo do Bolsonaro tem a ver com isso. A continuidade de práticas que eram condenadas, como nas indicações para cargos do governo, abre espaço para o eleitor rapidamente se frustrar. Mas não estou dizendo que isso vai acontecer. Valor: As redes sociais podem funcionar como um escudo do governo contra uma eventual frustração?

Meirelles: Se de um lado há uma parcela de eleitores que começa a pressionar e a questionar a adoção de antigas práticas políticas pelo governo, de outro tem um número grande de eleitores que quer acreditar na sua escolha. Agora vai ser o momento de o brasileiro tirar a prova da aposta que fez na eleição. Porque agora o governo vai ter que entregar resultados. Então, o sucesso ou não da nova administração, a continuidade ou não da lua de mel, está diretamente relacionada à capacidade de oferecer uma perspectiva de futuro diferente para a população. E à velocidade da retomada da economia.

Valor: Analistas condicionam a retomada da economia à aprovação da reforma da Previdência, que é um assunto impopular...

Meirelles: A população entende a reforma como algo que retira direitos de quem mais precisa. Não estou dizendo que não é ou é assim. Mas acho que a narrativa sobre a reforma da Previdência terá que ser mais que econômica para conseguir ganhar a opinião pública. Dito isso, acho que alguma reforma da Previdência vai ser aprovada. Não sei se toda, ou fatiada, mas algo vai ser dado. Se ela de fato vai combater privilégios, é o que garantirá ou não a pressão da população sobre o Parlamento.

Valor: O sr. já disse em outras ocasiões que pautas comportamentais ganham força em épocas de crise. Se a economia melhorar, a pauta de costumes do governo, que é polêmica, tenderá a submergir?

Meirelles: Acho que a estratégia do governo será colocar a pauta de costumes para ajudar a pauta econômica. A ministra Damares [Alves, da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos] e o ministro da Educação [Ricardo Vélez Rodríguez] vão tocar essa pauta para manter a base coesa e não ter uma discussão de fundo com a população sobre economia. Não digo que essa pauta de costumes passará pelo Congresso, mas o debate será colocado. Com isso você divide o "share" de tempo da atenção publica entre a causa do combate à corrupção, a pauta de costumes e as reformas econômicas.

Valor: Dá para saber o que o brasileiro quer nos próximos anos?

Meirelles: O brasileiro quer se ver como protagonista, mais até do que ser. Isso é bom. A consequência disso na política é uma vontade maior de fiscalizar o poder público, interferir nos processos de votação e de alguma forma influenciar o rumo do país. Se o empoderamento da população não acontecer na vida real, a revolta vai ser maior que a que vimos nos últimos anos.

Valor: Um novo 2013?

Meirelles: Se as expectativas criadas no processo eleitoral não forem realizadas, acho que temos um risco maior do que em 2013. O brasileiro quer a mudança que ele idealizou. Qual o risco de isso acontecer? Não sabemos. Ainda tem muita água para rolar embaixo da ponte. Mais importante para saber para onde o Brasil está caminhando é saber quais são as premissas e ir monitorando.

Valor: E quais são as premissas do Brasil hoje?

Meirelles: A relação do governo com o Congresso, sua capacidade de sustentar uma imagem de honestidade, a velocidade do crescimento da economia e também da renda do brasileiro das classes C e D. V

alor: Se sair desse trilho...

Meirelles: Começa a dar errado. Mas de outro lado é importante observar o quanto a oposição será capaz de dar atenção à sociedade, e não para brigas internas partidárias. Desde o processo do impeachment [de Dilma Rousseff, em 2016], PT e PSDB, o establishment, fizeram política olhando para si mesmos, e não para a sociedade. Naquela época, a demanda do eleitor não era pelo [Michel] Temer, a demanda era para tirar Dilma e ter novas eleições. E o maior partido do país se recusou a defender novas eleições e impediu partidos menores da esquerda de propor isso. Se essa demanda tivesse sido atendida, talvez a situação seria diferente hoje. Os grupos que ocuparam o poder desde a redemocratização abriram mão de falar com a sociedade.

Valor: Tivemos avanço grande de pautas de gênero e de raça nos últimos anos. Essas pautas podem retroceder a partir de agora?

Meirelles: A população costuma apoiar políticas de inclusão como cotas, Bolsa Família. Mas a pauta de costumes, como união civil entre pessoas do mesmo sexo, interrupção da gravidez, direitos da população LGBT, é mais complicada. Não acredito que haverá retrocesso. Pode haver interrupção [da evolução]. Nas empresas, ao menos, não há perigo de retrocesso. Os departamentos de recursos humanos estão colocando isso cada vez mais em pauta. É um movimento sem volta.

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