BCs se desdobram para ampliar liquidez da economia

VALOR ECONÔMICO

A crise provocada pelo coronavírus caminha para paralisar a produção e restringir severamente o consumo. As atividades poderão chegar à virtual interrupção em muitos setores vitais para a economia. A opção das autoridades, ao determinarem regras rígidas de distanciamento social, tem custo muito elevado, que se tornará insuportável se as quarentenas durarem por meses a fio. Apoiar as empresas, os trabalhadores, inclusive os informais, e dotar o sistema de saúde de todos os recursos de que possa precisar é uma tarefa inadiável - e gigantesca. Para o amparo da economia brasileira, o Estado demorou a agir, mas pode recuperar o tempo perdido se seguir a direção correta.

Esta compreensão se transformou em prioridade no Banco Central, que agora se desdobra para aumentar a liquidez da economia, evitar um freio súbito no crédito e elevação do seu custo. Os mecanismos disponíveis têm grande impacto. Ontem o BC reduziu temporariamente os compulsórios dos depósitos a prazo de 25% para 17%, ampliando para R$ 203 bilhões a liberação do encaixe obrigatório, quando somada à decisão de ontem outras medidas na mesma linha tomadas em fevereiro.

As medidas induzem os bancos privados a emprestar, em especial agora em que os juros reais estão perto do zero, mas nada garante que o façam a um custo adequado e compatível com a perspectiva de grave recessão. Por isso o BC criou uma linha temporária especial de liquidez, que dará vazão a debêntures, títulos privados, abrindo espaço nas instituições financeiras para mais empréstimos às empresas. O BC comprará esses títulos no período entre 23 de março e 30 de abril.

Como o setor financeiro é majoritariamente composto por bancos pequenos e médios, que, ao contrário dos grandes, também passam por aperto de liquidez durante as crises, o BC permitiu a captação de recursos a prazo com garantias do Fundo Garantidor de Crédito, até o limite de patrimônio de R$ 2 bilhões. Mais ações estão a caminho. A autoridade monetária estuda a possibilidade de permitir empréstimos por meio de Letras Financeiras com lastro em operações de crédito.

As medidas do BC poderão ao final, se todas forem executadas, tornar disponíveis R$ 1,21 trilhão em recursos ao sistema financeiro. Uma medida é vital agora: fazer chegar um amplo apoio creditício às micro, pequenas e médias empresas, que empregam dois terços da mão de obra brasileira, e que têm normalmente dificuldades em obter financiamentos bancários. Esse é o principal gargalo da crise pelo lado empresarial e financeiro.

O BC tem os bancos públicos do seu lado nesta tarefa, depois que Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil reforçaram suas linhas de crédito. Mas tudo isso ainda pode ser insuficiente, alertam o ex-presidente do BC, Arminio Fraga, e os economistas Vinicius Carrasco e José Alexandre Scheinkman (site Folha de S. Paulo). Eles defendem que o crédito para micro, pequenas e médias empresas precisa ter o máximo de agilidade, o mínimo de burocracia e custo compatível com um ambiente de parada súbita das atividades. Propõem linhas de crédito emergenciais de R$ 120 bilhões, com dinheiro e risco de crédito assumidos pelo Tesouro. Um dos parâmetros poderia ser a necessidade de manutenção da folha de salários por alguns meses, com o compromisso de que os tomadores não realizem demissões no período.

Deveriam ter longo período de carência e custo semelhante ao que o Tesouro tem para se financiar, hoje perto de 7% ao ano. Seria uma ação ousada e inédita no Brasil, mas não no âmbito global. O Federal Reserve americano ampliou ontem seu leque de proteção a todos os cantos do mercado financeiro. Ele vai comprar US$ 300 bilhões em carteiras de empréstimos a PMEs feitas por um órgão oficial especializado neste segmento. Aceitará títulos lastreados em crédito estudantil, cartões de crédito e financiamentos de automóveis.

O Fed já anunciara que comprará comercial papers, papéis de dívida privada, não apenas no mercado secundário, como também no primário. Neste caso serão beneficiadas empresas com grau de investimento, que poderão emitir dívidas novas para esse fim e diferir pagamento de juros e principal por seis meses. O objetivo das autoridades monetárias, nos EUA e aqui, é impedir uma crise financeira, manter as empresas de pé durante o turbilhão do coronavírus, impedir uma crise financeira e assim salvar o máximo de empregos que for possível.

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