'Crédito âncora' é opção para empresa manter cadeia produtiva na crise

O ESTADO DE S. PAULO

A crise de liquidez gerada pela pandemia do novo coronavírus ressuscitou uma modalidade de empréstimo que pode fazer o dinheiro, de fato, chegar na mão de quem precisa e a um custo menor. Conhecido como crédito âncora, a estrutura une as duas pontas. De um lado, a grande empresa toma o crédito e do outro repassa à sua cadeia de fornecedores, emprestando o seu “risco” e a sua capacidade.

A procura pela modalidade tem crescido em meio à preocupação de grandes empresas com a sustentabilidade dos seus fornecedores. Em busca de meios para apoiá-los na travessia da crise gerada pela pandemia do novo coronavírus, o crédito âncora surge como alternativa.

“Na crise de 2008, grandes empresas, principalmente nos Estados Unidos, mas também no Brasil, deram suporte aos seus fornecedores”, lembra o professor de finanças da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP), Rafael Schiozer. “Agora, a gente está vendo o mesmo fenômeno, com grandes empresas preocupadas com a sua cadeia produtiva, em manter os fornecedores vivos.”

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já teria recebido a demanda de, ao menos, 35 empresas interessadas em obter crédito âncora, apurou o Estadão/Broadcast. Os grupos empresariais são de diferentes setores, como alimentação, varejo, indústria têxtil, aviação civil, tecnologia, mineração, turismo, sucroalcooleiro, dentre outros. Com tíquetes entre R$ 10 milhões e R$ 200 milhões, o banco de fomento espera contratar R$ 2 bilhões na modalidade.

Por ora, contudo, a linha lançada em 15 de junho ainda não teve nenhuma contratação. A demora ocorre porque, de acordo com uma fonte, as empresas interessadas estão se estruturando para repassar o crédito à cadeia de fornecedores.

Além disso, há dúvidas quanto aos impactos da modalidade para as grandes companhias. Entre elas, o acompanhamento do uso dos recursos, como será feita a tributação do empréstimo e os custos atrelados nas garantias que os grupos têm de apresentar para obter o empréstimo que será repassado.

“É um processo bem diferente. A própria empresa precisa se estruturar para emprestar e esse dever de casa está sendo feito no meio da pandemia”, diz uma fonte próxima ao BNDES.

Embora tenha todo o perfil de um “produto de crise”, a expectativa do banco de fomento é que o crédito âncora ganhe corpo mesmo passada a turbulência gerada pela pandemia. No passado, o BNDES chegou a estruturar duas operações – uma para o grupo O Boticário e outra para a Renner, mas a modalidade não decolou.

Além da crise, o cenário de juros baixos contribui para que o crédito âncora ganhe mais fôlego no País. Isso porque a despeito da queda da Selic, hoje em 2,25% ao ano, as pequenas e médias empresas têm dificuldade para tomar empréstimo – seja por não apresentarem garantias, seja pelo elevado custo para acessar os recursos.

“O mundo que vai chegar com juros mais baixos vai demandar condições diferenciadas e a questão do risco terá se der ajustada”, avalia o fundador da gestora Kobold, Fernando Ribeiro. “A característica empreendedora das pequenas empresas não pode ser um obstáculo, deveria ser uma alavanca para o crédito”, diz ele, que começou a estudar o crédito âncora há três anos.

No Banco do Brasil, a demanda das grandes empresas por linhas de antecipação de recebíveis de seus fornecedores tem ajudado a manter o fluxo de desembolso na modalidade, a despeito da crise. De acordo com o vice-presidente do banco, Walter Malieni, a instituição tem liberado mensalmente em torno de R$ 280 milhões, mesmo patamar do ano passado.

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