Veja proposta com 9 itens que garante crédito para empresas suportarem choque do coronavírus

FOLHA DE S. PAULO

A crise do coronavírus atingiu o planeta como um asteroide. O quadro dramático que se desenha para os próximos meses tem levantado inúmeras questões humanitárias, de saúde, de logística e distribuição e econômicas.

Nos últimos dias, analistas brasileiros têm feito propostas relativas a esses temas, com especial ênfase em questões econômicas. Há propostas de grande mérito como o financiamento de investimentos e despesas extraordinárias com a saúde, ou a extensão de programas de renda mínima para trabalhadores informais.

Outras propostas teriam sido adequadas para a crise que se seguiu à explosão da bolha de preços no setor imobiliário nos EUA e Europa que afetou principalmente o sistema financeiro e grandes empresas, mas não atacam o problema de hoje.

No combate ao coronavírus, as medidas de contenção de contatos entre indivíduos, que têm sido enfatizadas, parecem muito necessárias, mas estas políticas reduzem de maneira drástica as receitas das pequenas e médias empresas (PMEs), principalmente em áreas urbanas.

O choque é temporário, enorme e totalmente fora de controle das empresas. Ele combina dimensões de oferta (e.g., ausência de funcionários, insumos que deixaram de chegar da China, num primeiro momento, e restrições expressas a funcionamento, como no caso de shoppings e bares e restaurantes) e de demanda.

Parte da economia real estará temporariamente impedida de produzir. No entanto, com políticas bem desenhadas, conseguiremos manter capital físico, humano (força de trabalho e suas habilidades) e organizacional intactos, de modo que, passado o choque, possamos ter uma retomada rápida e plena. E aí que precisamos atuar, provendo fôlego para que as PMEs façam a travessia, mantendo sua capacidade de produzir e minimizando o desemprego.

Em períodos de crise, observa-se no mercado de crédito uma perversa combinação de encolhimento e substancial encarecimento de crédito. O que fazer? Uma boa opção é o poder público criar linhas (temporárias) emergenciais de crédito, nas quais incorra diretamente pelo risco de crédito. Nos Estados Unidos, a proposta do Tesouro é criar uma linha de crédito de 300 bilhões de dólares para ajudar as PMEs.

No Brasil, as carteiras de crédito para as PMEs, somam cerca de R$ 500 bilhões (segundo matéria publicada na Folha). Na mesma matéria, o presidente da Caixa, numa importante iniciativa, anuncia uma oferta de R$ 22 bilhões para o setor. Como banco, no entanto, a Caixa estará restrita a emprestar contra garantias. O momento agudo requer mais: o governo precisa atuar com políticas que vão além das factíveis para seus bancos públicos.

Acreditamos que cabe, assim como foi proposto nos EUA, a criação de uma linha emergencial de R$ 120 bilhões (equivalente para o Brasil do montante lá anunciado), sem garantias, provida pelo Tesouro. Os empréstimos teriam seu risco de crédito assumido pelo Tesouro e seriam feitos através da Caixa e quaisquer players, como instituições financeiras e de pagamento, que possuam infraestrutura e capilaridade e estejam dispostos a servir de “tubo”, sem remuneração econômica.

Para que essa ação seja a mais efetiva possível, não esteja sujeita a pressão de grupos de interesse e custe o menos possível para o Estado, listamos características que uma linha emergencial direta deva ter:

Circunstâncias extraordinárias requerem atuação extraordinária. Preservar o capital organizacional e os empregos de PMEs permitirá que, uma vez passada a crise de saúde, a retomada econômica se dê de maneira célere. Não fazê-lo magnificará as perdas econômicas e fará com que um choque temporário tenha efeitos permanentes, com enormes consequências sociais.

Arminio Fraga

Sócio da Gávea Investimentos, membro do Conselho Consultivo da StoneCo e Fundador do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde

Vinicius Carrasco

Economista-chefe e sócio da StoneCo e Professor do Departamento de Economia da PUC-Rio

José Alexandre Scheinkman

Professor da Cátedra Charles and Lynn Zhang de Economia da Universidade Columbia, membro do Conselho Consultivo e acionista da StoneCo

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