Conjuntura econômica derruba setores que bombaram na pandemia

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Isolamento social alavancou alguns produtos, que agora recuam diante da inflação e mudança de hábitos

Thiago Bethônico
SÃO PAULO

Nos últimos dois anos, o isolamento social fez com que certos setores econômicos registrassem crescimento acima da média. Produtos para casa, eletrodomésticos e insumos para reformas são exemplos de itens que tiveram um desempenho excepcional, e que agora vivem uma espécie de ressaca pós-pandêmica.

Com a redução das medidas de distanciamento, o perfil de consumo passou por transformações, ajudando a frear a boa performance dos segmentos que bombaram durante a quarentena. Mas a mudança de hábitos não é a única explicação.

Em tempos de inflação alta e perda de poder aquisitivo, o consumidor também precisou reconsiderar os produtos que cabem no bolso. Já do lado dos fabricantes, a elevada taxa de juros, o dólar caro e o cenário internacional encareceram a produção —formando uma conjuntura econômica desfavorável aos negócios.

Mulher observa produtos em megaloja da Casas Bahia, na marginal Tietê, durante a Black Friday 2021; setor de eletroeletrônicos vive período de esfriamento após boom da pandemia – Danilo Verpa/Folhapress

Um relatório recente sobre o mercado de eletroeletrônicos ajuda a entender esse contexto. De janeiro a maio de 2022, o setor registrou uma queda de 19% nas vendas ao varejo em relação ao mesmo período do ano passado.

Nos cinco primeiros meses deste ano foram comercializados 31,49 milhões de unidades, ante 39 milhões em 2021. Fazendo uma média de todas as linhas de produtos o recuo é ainda maior: 24%.

Segundo a Eletros (Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), o setor teve resultados surpreendentes durante a pandemia —exceto nos primeiros meses.

O isolamento social fez com que os consumidores investissem em novos produtos para a casa, como lava-louças, aspirador de pó, fritadeiras tipo air fryer, além de televisões e produtos de linha branca (que inclui refrigeradores, fogões e máquinas de lavar).

“As pessoas transformaram o ambiente do lar em um ambiente de escola, de lazer, de trabalho. Todos precisaram organizar a casa para suprir essas outras áreas e necessidades”, diz Jorge Nascimento, presidente executivo da Eletros.

Há cerca de um ano, porém, o desempenho mudou de trajetória. O setor de ar-condicionados, por exemplo, teve vendas 36% menores nos primeiros cinco meses de 2022 na comparação com o mesmo período do ano passado. No caso dos televisores, a queda foi de 19%.

De acordo com Nascimento, os resultados estão diretamente vinculados à perda de poder de compra da população.

Nos últimos 12 meses, a inflação medida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) atingiu 11,89%. Desde setembro de 2021, o nível acumulado está em dois dígitos, ou seja, acima de 10%.

Setembro, aliás, é o mês em que o setor percebeu a virada de performance. “Foi quando começamos a notar uma queda, e logo numa época que é de sazonalidade nossa. O segundo semestre costuma ser melhor, porque tem pagamento de 13º salário, Black Friday, Natal. Tudo isso ajuda a aquecer o mercado”, afirma Nascimento.

Além da alta dos preços, também entram na equação: o aumento na taxa de juros —que inibe a busca por crédito—; o dólar em patamar elevado; e o alto custo dos insumos e do frete internacional. Com a flexibilização das medidas sanitárias, o mercado de eletrônicos também passou a disputar parte da renda das famílias com serviços e turismo.

“O setor de eletroeletrônicos é um setor de bens de consumo. Então, se a economia vai bem, imediatamente mostramos um resultado positivo. Quando a economia vai mal, somos os primeiros a sentir a queda”, diz.

Outro segmento que vem caindo em relação à bonança da pandemia é o de móveis. Nos primeiros meses de 2021, o mercado vivia um dos momentos de maior aquecimento de sua história.

A lógica é semelhante ao que ocorreu com os eletroeletrônicos. Com o isolamento social, as pessoas começaram a comprar mais produtos para a casa, seja por uma questão de conforto ou por necessidade —como equipar a casa para o home office, por exemplo.

Além disso, o auxílio emergencial permitiu uma injeção de recursos na economia que alavancou os números do setor.

No entanto, um relatório recente da Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário) indica uma perda de fôlego. Nos primeiros cinco meses de 2022, a produção de móveis registrou queda de 21,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Em maio, o consumo interno aparente —quantidade de peças disponíveis no mercado— está 22,6% menor do que em 2021 e, no comércio varejista, as vendas tiveram uma queda de 9,7% nos últimos 12 meses.

Assim como a compra de móveis recuou, o mercado de reformas também passa por um esfriamento. Em abril de 2021, reportagem da Folha mostrou que os juros baixos e a insegurança provocada pela pandemia vinham impulsionando as obras de melhoria nos imóveis, como forma de investimento.

Naquela época, a Selic estava em 2,75% ao ano, cenário bem diferente dos atuais 13,25%.

A mudança de conjuntura se reflete nos resultados do setor de insumos. A venda de cimento, por exemplo, teve queda de 2,7% no primeiro semestre de 2022 em relação ao mesmo período do ano passado.

Segundo o Snic (Sindicato Nacional da Indústria do Cimento), o mês de junho atingiu 5,2 milhões de toneladas comercializadas, uma perda de 5,3% comparado a 2021.

De acordo com a entidade, o agravamento do ambiente econômico —com inflação elevada e massa salarial em patamares preocupantes— aliado ao preço das commodities e à instabilidade geopolítica têm impactado a economia como um todo.

“Diante desse cenário, a expectativa da indústria do cimento em assegurar os ganhos obtidos de 2019 a 2021 caminha para uma indesejável frustração”, diz Paulo Camillo Penna, presidente do Snic.

Para os próximos meses, a perspectiva tampouco é positiva. O setor espera um quadro econômico e político ainda mais turbulento e já estima uma queda entre 1% e 2% em 2022.

ALGUNS SETORES NÃO CAÍRAM, MAS FREARAM

Outro mercado que explodiu durante a pandemia foi o de pets. Em 2021, o segmento ultrapassou a marca dos R$ 51,7 bilhões em faturamento pela primeira vez, uma alta de 27% em relação ao ano anterior.

Embora os resultados de 2022 não estejam no vermelho —como ocorre com eletroeletrônicos, móveis e cimento— a taxa de crescimento começou a recuar.

Segundo o Instituto Pet Brasil, o mercado deve ter alta de 14% em 2022, com faturamento na casa dos R$ 59 bilhões.

Não fosse a conjuntura econômica, o cenário poderia ser ainda melhor. Uma pesquisa feita pelo C6 Bank em parceria com o Ipec mostrou que a inflação obrigou 44% dos brasileiros que têm pets a reduzir os gastos com os animais de estimação.

Consumidores tiraram do carrinho itens como brinquedos e sachês. Além disso, quase metade (48%) trocou o tipo de ração por opções mais baratas.

Cenário semelhante acontece com o mercado de delivery. O canal já vinha crescendo nos últimos anos, mas a crise sanitária acelerou esse ritmo a um nível exponencial.

“Neste novo momento, é natural que o delivery não cresça na mesma velocidade, mas não percebemos que há um retrocesso”, afirma Fernando Blower, diretor executivo da ANR (Associação Nacional de Restaurantes)

Na visão dele, a transformação foi estrutural, isto é, o consumidor mudou seus hábitos e passou a usar mais este canal —o que tende a ser perene.

“É um momento positivo, uma vez que temos conseguido recuperar faturamento e clientes, porém de alerta e preocupação por conta da inflação dos alimentos e da dívida que ainda carregamos da crise”, diz.

MERCADO DE PLANTAS BALANÇA, MAS SEGUE FIRME

Sucesso absoluto durante o período de confinamento, as plantas para casa já não vivem mais aquele boom do primeiro ano de pandemia, mas o mercado como um todo segue forte.

Segundo Renato Opitz, diretor da Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura), o segmento de flores em vasos e plantas em geral —como samambaias e suculentas— teve um desempenho ótimo nos últimos dois anos, e agora começou a esfriar.

“Ninguém parou de comprar plantas. As pessoas que antes não tinham esse hábito, passaram a ter e gostaram. [A queda] É mais uma questão de acomodação do mercado e de competição com outras atividades —como turismo, gastronomia, teatro, cinema— que antes não existia”, diz.

Opitz também menciona a atual conjuntura econômica, em que a perda de poder aquisitivo provoca, naturalmente, uma diminuição no consumo de flores e plantas. “O cenário não está péssimo, o problema maior é o elevado custo de produção”, diz.

No entanto, observando o setor como um todo, a situação parece ter chegado a um equilíbrio. Isso porque o mercado de flores de corte —que inclui decorações para festas e casamentos— afundou durante a crise sanitária, mas retomou com força após o relaxamento das restrições.

As festas que foram adiadas agora estão se acumulando, a ponto de haver dificuldade em suprir toda a demanda.

A alta nesse segmento acaba compensando a menor procura por plantas de casa. “Se colocarmos tudo na balança, o atual período é melhor do que antes da pandemia”, diz.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/07/conjuntura-economica-derruba-setores-que-bombaram-na-pandemia.shtml

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