Crescem atrasos de pequena empresa

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A inadimplência de micro e pequenas empresas começa a mostrar sinais de deterioração, refletindo uma combinação negativa entre piora da pandemia, fim das linhas de crédito emergenciais e aumento das taxas de juros. Os balanços dos bancos privados mostram um aumento das operações em atraso, enquanto indicadores da Serasa Experian apontam uma quantidade maior de companhias inadimplentes. No Itaú Unibanco, a taxa de calotes de micro, pequenas e médias empresas subiu de 1,7% em dezembro para 2,5% em março. Há um componente natural de sazonalidade no período, mas o indicador também superou os 2,3% verificados no fim do primeiro trimestre de 2020.

O Bradesco fechou março com 2,6% das operações de crédito do segmento com atraso superior a 90 dias. A inadimplência vinha estável em 1,9% desde setembro, depois de ter atingido o pico de 4,5% no primeiro trimestre do ano passado. O banco atribuiu a alta a fatores sazonais. No Santander, os calotes de pessoa jurídica subiram de 0,9% para 1% entre dezembro e março – o banco não abre dados divididos pelo porte das empresas.

O presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, disse que as pequenas empresas são mais afetadas pelas medidas de restrição adotadas por conta da pandemia, enquanto as grandes costumam ter mais facilidade para distribuir seus produtos e serviços por meio dos canais digitais. Luiz Rabi, economista da Serasa Experian, também notou um aumento da inadimplência entre micro, pequenas e médias empresas e disse que a tendência é de alta. De acordo com dados do birô de crédito, 5,514 milhões de companhias desses segmentos tinham operações em atraso no fim de março. O número vem crescendo mês a mês desde dezembro, quando atingiu o ponto mínimo da pandemia (5,424 milhões).

Não é um grande salto, mas, segundo Rabi, as menores empresas – especialmente, as de serviços – não só vêm sentindo o impacto das novas medidas de isolamento, mas também da alta da taxa Selic, do fim das linhas de crédito abertas na crise e da pausa no auxílio emergencial. A nova rodada do benefício para trabalhadores informais só começou a ser paga em abril, e em valores mais baixos que os do ano passado. “Sem dinheiro, as pessoas começam a deixar de pagar determinadas contas, como água, luz ou um serviço prestado. A inadimplência começa pelas empresas não bancárias e depois os bancos sentem. Eles devem sentir a partir do segundo semestre”, afirmou o economista. Os pedidos de recuperação judicial de micro, pequenas e médias empresas captados pela Serasa também mostram uma piora: em queda desde novembro (47 solicitações), voltaram a subir em fevereiro (86) e março (73).

De qualquer forma, os bancos são unânimes em dizer que a inadimplência continua sob controle e não se vê uma grande tendência de alta. É esperado um crescimento das operações em atraso de forma geral – não só entre pequenas empresas – mas as instituições acreditam que voltarão ao patamar apresentado antes da pandemia. Na crise, as instituições financeiras conseguiram evitar um estouro dos calotes por meio de amplos programas de flexibilização de parcelas e prazos dos contratos. Ao mesmo tempo, estão fortemente provisionadas – com fôlego mais que suficiente para absorver um grande volume de perdas. O vice-presidente financeiro do Santander, Angel Santodomingo, afirmou em teleconferência na semana passada que pode haver algum aumento na inadimplência ao longo do ano, já que o indicador está nas mínimas históricas. “Mas o banco não vê sinais preocupantes e a qualidade de crédito está sob controle”, destacou.

Para Rabi, a alta nos juros é outro fator que desafia as pequenas empresas. A taxa básica de juros, a Selic, está em 2,75% ao ano e deve chegar a 5,5% no fim deste ano, segundo projeção de mercado divulgada no relatório Focus, do Banco Central. Nas renovações de linhas com os bancos, as companhias potencialmente encontrarão crédito mais caro. Ao mesmo tempo, a reabertura do Pronampe, uma das linhas emergenciais da crise, deverá vir com taxas mais altas porque o Tesouro vai reduzir o volume de garantias dadas aos bancos. Mesmo subindo, a permanência da Selic em um dígito ajuda a inadimplência a não explodir, segundo Rabi. “Claro que sair de 2% e ir para 6% tem efeito, mas não será uma taxa de 20%”, disse. No entanto, o economista ponderou que o cenário relativamente controlado mudará para pior se houver uma terceira onda de covid-19 – risco para o qual alguns médicos já alertam. Por enquanto, essa perspectiva tambem não está no cenário-base dos bancos. “Nossa expectativa é que o quarto trimestre será de normalização, com efeitos da vacina e volta da atividade”, disse Maluhy.

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