Nova força de trabalho perde habilidades com ensino remoto

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Após mais de um ano de ensino remoto – que pode chegar a dois anos a depender da evolução da pandemia -, a nova força de trabalho chegará ainda mais crua ao mercado de trabalho, com menos habilidades socioemocionais, como capacidade de se relacionar em equipe e criatividade, e também impacto em habilidades técnicas, apontam especialistas. A influência na formação tende a ocorrer tanto no ensino técnico quanto no universitário, mas principalmente em áreas que exigem mais prática e de treinamentos específicos, como mecânica, engenharias e saúde.

“Em geral, os cursos são estruturados com a parte mais teórica no início e a mais prática no fim, com laboratório e estágio. A parte prática tende a ser mais prejudicada, embora o efeito se dê de maneira diferente entre os cursos. A tendência é que os alunos cheguem com menos experiência no mercado”, afirma o professor do Insper e da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) Naércio Menezes. Ele é um dos autores de um estudo que compara o desempenho de estudantes de graduação presencial e de ensino a distância (EAD), que mostra que mais da metade dos estudantes tem desempenho pior no EAD. O trabalho compara alunos dos dois formatos de ensino com perfis semelhantes – sexo, raça, renda e nível educacional da mãe, entre outros. Embora diga que os dados tratam de períodos anteriores à pandemia (2015 a 2019), Menezes declara que podem servir como referência para avaliar os riscos de piora na formação profissional dos jovens. Na sua avaliação, o custo das empresas para treinar esses profissionais tende a ser maior, assim como o tempo do aprendizado. “Vai aumentar muito o chamado ‘on the job training’”, diz ele.

Para que a produtividade do trabalho não despenque, afirma a fundadora da Cia. de Talentos, Sofia Esteves, será fundamental o envolvimento das empresas na qualificação dos funcionários e dos próprios jovens de busca por conhecimento. “Os jovens vão sair de seus cursos mais despreparados do ponto de vista técnico e de atitude. Eles estão perdendo aquela troca no corredor com os colegas, aquela conversa com o professor no fim da aula… O convívio na faculdade ajuda a preparar para o mercado corporativo. Em geral, os jovens estão mais ansiosos e inseguros”, aponta. Professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Teresa Rego avalia que quem tende a sentir mais os prejuízos do longo período de aulas à distância é quem está para se formar e as crianças no início da vida escolar. Mas, acrescenta, os efeitos serão sentidos em todas as fases.

“A escola é o lugar que, vamos dizer, tira o sujeito da ignorância. E falando em linhas bem gerais: estaremos todos mais ignorantes. E obviamente que isso trará também impactos no mundo do trabalho, que se soma a uma crise econômica séria e às dificuldades que já existiam nas oportunidades de trabalho para os jovens”. Os irmãos Marcelo Campos Filho, de 21 anos, e Marcos Abdalla Campos, de 19 anos, estudam administração de empresas no Insper. Enquanto o primeiro está na reta final da faculdade, o segundo terminou o primeiro ano do curso em 2020, mas suspendeu os estudos neste semestre por causa da pandemia. Ele sentiu que a absorção do aprendizado não era a mesma no ensino remoto e quis aproveitar mais o contato com outros alunos e professores. “Meu pensamento é ganhar seis meses lá na frente sem covid”, diz Marcos. Já Marcelo diz não ter sentido o impacto do ensino remoto, já que a grade curricular no último ano é de disciplinas eletivas. No caso do curso de administração, o conteúdo é mais teórico. “Por um lado, tenho até conseguido me dedicar mais ao meu estágio, que comecei em janeiro”, afirma.

Mais do que a formação de quem permanece na universidade, a preocupação do economista-sênior da Prática Global de Proteção Social e Empregos do Banco Mundial Matteo Morgandi é com a evasão dos alunos por falta de renda. “Seguramente há algum efeito em habilidades socioemocionais, como o trabalho em equipe. Mas a evasão é um problema mais sério. Sabemos da dificuldade que a pessoa que abandona um curso superior por causa de crise tem para voltar”, afirma ele. “Com menos gente qualificada se formando, há custo para as empresas, especialmente aquelas que já tinham dificuldade de contratar antes da pandemia.” Na sua avaliação, o momento tende a intensificar um problema que já crescia no país antes da pandemia, que é a dificuldade de encontrar o primeiro emprego.

Diretor da Page Group, empresa especializada em recrutamento e seleção, Lucas Oggiam concorda sobre os efeitos da formação profissional nas chamadas soft skills – tão fundamentais no mercado de trabalho atualmente -, mas contesta uma relação direta entre o ensino remoto e a piora da qualidade da formação. “Nossa percepção, como avaliadores de profissionais, é que o impacto se dá muito menos nos aspectos técnicos que nos aspectos comportamentais. O desafio cultural e comportamental é muito grande. Jovens ainda são mais imaturos”, diz. O Senai, que oferece cursos técnicos e de tecnólogos, diz que a substituição do ensino presencial pelo remoto traz perdas para a formação, mas pondera que o uso de tecnologias de ponta, como realidade aumentada e simuladores, ajudam a conter esse efeito. “Dizer que não teve perda seria ignorar a realidade, mas as tecnologias digitais ajudam a mitigar isso”, diz o diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi. A avaliação é compartilhada pelo presidente da Fundação Iochpe, Claudio Anjos, responsável pelo programa Formare, que já formou mais de 22 mil jovens em cursos técnicos. Atualmente, o programa tem parcerias com 46 empresas, em 68 unidades, e tem mil alunos. “Obviamente a experiência do curso presencial é diferente, no ensino há perda de convivência. Mas fizemos uma adaptação cuidadosa da metodologia”, diz.

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