Uso do dinheiro é bem maior entre classes de renda mais baixa

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Quase metade dos brasileiros cita o dinheiro como principal meio para pagar suas compras. O uso, no entanto, é muito diferente de acordo com a classe de renda, como mostra uma pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva em janeiro deste ano. Nas classes D e E, 65% disseram que o dinheiro é a forma de pagamento mais utilizada, parcela que cai para 38% na classe C e para 15% nas classes A e B.

Os números da pesquisa refletem o cenário pós-pandemia, em que houve, ao mesmo tempo, aumento da digitalização da economia e do uso do dinheiro, impulsionado pelo auxílio emergencial. Nas classes de renda mais baixas, beneficiárias do programa de apoio do governo, o hábito de uso do dinheiro já era mais frequente e acabou intensificado no contexto da crise em função da covid-19. O Banco Central recorreu até mesmo ao lançamento da nota de R$ 200, para evitar qualquer risco de falta de papel moeda nos bancos.

“Na pandemia, há mais digitalização, que muda os fluxos de entrada de dinheiro. Isso tem influência do auxílio emergencial e de outros programas de ajuda de governos estaduais. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas sacam o dinheiro porque não conseguem negociar descontos nos outros meios de pagamento da mesma forma que com o dinheiro vivo”, afirma o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles.

Professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP), Rodrigo De Losso destaca a influência conjunta do aumento da quantidade de dinheiro em circulação na pandemia, em função do pagamento do auxílio emergencial, e da expansão da informalidade no mercado de trabalho no período mais recente. “Essas pessoas mais vulneráveis, que receberam o auxílio, geralmente sacam o dinheiro que recebem na boca do caixa. Ao mesmo tempo, avançou a quantidade de trabalhadores informais, que tendem a receber mais em dinheiro”, diz. Na avaliação de Meirelles, o uso do dinheiro está diretamente ligado à chamada “lógica da pechincha” e do controle do dinheiro. E o movimento se intensifica num contexto de crise como o que se vive desde 2020, com a necessidade de as pessoas fazerem o dinheiro render mais. “Na crise, é preciso economizar mais. Com dinheiro vivo, as pessoas conseguem negociar mais que com o cartão, por exemplo. O maior rendimento é o de 5% do uso do dinheiro vivo. Além disso, o dinheiro dá sensação de controle. Cartão na mão é vendaval”, diz ele.

A pesquisa do Instituto Locomotiva – feita com 1.500 pessoas acima de 18 anos – aponta ainda as vantagens para o uso do dinheiro nas compras. As razões mais citadas foram desconto no pagamento (51% dos entrevistados), possibilidade de negociar o preço (45%), praticidade (40%), mais facilidade no controle de gastos (35%) e ausência de taxas (34%). O levantamento revela também que 22% dos brasileiros com renda recebem a maior parte dos seus recursos em dinheiro, um contingente de 29,8 milhões de pessoas. Já a parcela dos que ganham ao menos uma parte da renda em dinheiro chega a 28%, ou 37,9 milhões de pessoas.

Moradora de Manaus (AM), Fabíola Cristina de Lima Veras, de 38 anos, é uma das brasileiras que usa dinheiro em busca de descontos nas compras. Fabíola trabalha vendendo cosméticos e doces feitos por ela, que precisa ficar em casa para cuidar do filho Leonardo, de seis anos, que nasceu com uma má formação genética e tem dificuldades de desenvolvimento. “No mercadinho aqui perto de casa, só pago em dinheiro. Eles cobram mais para o pagamento em cartão. Quando preciso comprar em outros lugares, o dinheiro me ajuda a conseguir descontos, faz diferença no orçamento”, diz ela.

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