desempenho do mercado de trabalho levanta dúvidas sobre recuperação

Na coluna passada argumentei que o panorama externo favorável trouxe folga para o cenário fiscal já que as coisas que produzimos e exportamos —commodities em sua maioria— tornaram-se mais demandadas, especialmente agora que várias economias avançam na vacinação, reabrem suas economias e estabelecem planos de investimentos em infraestrutura para uma retomada sustentável, além de mais verde e tecnológica.

Mas ainda que o país possa ter ficado mais rico, os ganhos não foram distribuídos para a população. Há, sem dúvidas, ganhadores e perdedores, e um dos principais sinais de uma frágil recuperação vem do mercado de trabalho, que apesar de dar sinais de melhora, o faz de forma lenta e desigual.

A taxa de desocupação, métrica tradicional de desempenho do mercado de trabalho, está em 14,7%. Apesar de ser um recorde histórico desde o início da série, em 2012, o número representa um aumento de apenas 2,5 pontos percentuais em comparação a igual trimestre do ano anterior. Em números absolutos são em torno de 2 milhões de pessoas desocupadas a mais (14,8 milhões no total).

Entretanto, durante a pandemia a taxa de desocupação passou a ser estatística pouco informativa sobre os efeitos devastadores da crise econômica na vida das pessoas, já que muitos trabalhadores ficaram fora da força de trabalho da economia, apesar de serem força de trabalho em potencial. São pessoas que gostariam de trabalhar, mas que ficaram impedidas de procurar ou de assumir postos de trabalho, seja porque não existe emprego, porque o retorno ainda não é seguro, ou porque as escolas ainda não estão totalmente abertas.

Nesta crise, a força de trabalho em potencial aumentou muito mais que a população desempregada, passando de 8,3 para 11,3 milhões. Assim, somando os desempregados à força de trabalho em potencial, temos 26 milhões de trabalhadores subutilizados. Considerando, alternativamente, a população ocupada, passamos de 92,2 para 85,6 milhões de empregos entre os primeiros trimestres de 2020 e 2021, uma perda de 7 milhões de empregos.

O baixo desempenho do mercado de trabalho é evidente, e levanta muitas dúvidas sobre uma recuperação mais robusta da economia. Pela massa de rendimentos reais, houve queda de quase 7% em termos reais entre os primeiros trimestres de 2020 e 2021, apesar do PIB real ter crescido 1% em igual período. E a relativa estabilidade do rendimento real do trabalho, em torno de R$ 2.500, diz pouco sobre a escassez de mão-de-obra, já que mudanças na composição da força de trabalho favorecem, justamente, os trabalhadores de maiores salários.

Os setores que mais cresceram no período —indústria e agricultura— não são os mais intensivos em mão de obra, e o setor de serviços continua sem muitas perspectivas enquanto a vacinação não avançar. Na abertura do emprego por setor, os ganhadores e perdedores se revelam: enquanto a ocupação em agricultura e pecuária aumentou em 329 mil postos, o comércio perdeu 1,6 milhão de trabalhadores, as atividades de alojamento e alimentação mais 1,4 milhão, e população de trabalhadores domésticos encolheu outro 1 milhão.

A recuperação econômica sem empregos (jobless recovery) —quando a economia cresce, mas o mercado de trabalho não responde— acontece quando realocações setoriais geram descasamentos entre quem busca e quem oferece trabalho. Em alguns setores, a demanda pode não voltar aos níveis pré-pandemia, resultado direto das mudanças nos padrões de consumo que permanecem mesmo depois da vacinação e reabertura. E reestruturações organizacionais eliminam permanentemente trabalho desnecessário, especialmente em firmas pequenas, criando mudanças estruturais nas oportunidades de emprego.

Pode até ser que o avanço da vacinação traga alguma esperança para a recuperação do mercado de trabalho. Os próximos meses dirão. Mas também não há nenhuma garantia de que tudo voltará a ser como antes. Se de um lado a trajetória fiscal se tornou mais sustentável, de outro, a sociedade ficou mais desigual e com piores perspectivas de emprego. O PIB é certamente um dos indicadores da retomada, mas ele sozinho não será suficiente para garantir um crescimento estável e duradouro da nossa economia, especialmente quando os ganhos deixam tanta gente para trás.​

FOLHA DE S. PAULO

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